sábado, 19 de dezembro de 2020

O que a Grécia antiga pode nos ensinar sobre Música?

A música faz parte do nosso cotidiano, isso é inegável, seja na Tv ou na internet, não há um dia que não ouvimos música. De forma voluntária ou não, ela chega a nós tão fácil e com um volume tão absurdo que o simples ato de ouvir música se tornou algo banal. É comum ouvir música como pano de fundo em uma festa ou até em casa mesmo, quando o som fica ligado enquanto se lava a louça.  

Essa facilidade de consumo influencia na qualidade do que se ouve. Músicas simples com melodias pobres, e nem preciso falar das letras. Após lecionar alguns anos em escola eu me fiz uma pergunta que acredito não ser o primeiro: O que houve com a Música?

Para tentar responder essa questão eu me voltei aos antigos com o intuito de encontrar a raíz do problema. Eu ainda não a encontrei, mas quero dividir com vocês, nesse post, o caminho que acredito ser o mais plausível.

Primeiro precisamos entender que para os gregos, a música tinha um conceito mais amplo que temos hoje. O termo “Mousiké” se refere a toda criação artística derivada das Musas. Portanto a Música, para eles, trata-se de arte.

 Em um primeiro momento, na época Homérica, para ser mais exato, “a arte das Musas” era transmitida por Rapsodos, poetas que declamavam seus versos em praças públicas e banquetes. Entre esses poemas podemos destacar a “Ilíada” e a “Odisseia”, ambos de autoria atribuída a Homero.

Pitagóricos celebram o nascer do Sol - Fyodor Bronnikov

Estamos falando de um tempo onde não existia escola e muito menos pessoas alfabetizadas, os conhecimentos eram transmitidos de forma oral, e a figura do poeta era fundamental para essa transmissão de conhecimento. Por sua importância, o artista era visto como um educador. Já podemos perceber então o papel dado à Música, e como ela moldou a sociedade da época.

Outra manifestação artística surgida em um momento posterior é o teatro. Aqui temos o nascimento da comédia e da tragédia. Da mesma forma que os poetas influenciavam com seus versos, o povo também era “educado” pelos espetáculos teatrais, e isso fica bastante claro em um trecho da comédia “as Rãs” do comediógrafo Aristófanes: 

“Aí estão os temas que os poetas devem cultivar. Veja, por exemplo, os serviços prestados desde o princípio pelos poetas mais ilustres: Orfeu ensinou os Mistérios sagrados e o horror à violência; Museu, os remédios para as doenças, e os oráculos; Hesíodo ensinou a agricultura — a época das colheitas e da semeadura. E o divino Homero, de onde lhe veio tanta honra e glória senão por haver ensinado melhor que todos os outros as virtudes marciais, a arte das batalhas e a profissão das armas? ” 

Outro fato interessante é a origem divina atribuída à Música. As Musas, já citadas, são filhas de Zeus. Elas são as responsáveis por “cantar” aos ouvidos do poeta que são meros transmissores:

“ Assim disseram, com hábeis palavras, as filhas do grande Zeus[...] inspirando-me um canto sublime, para glorificar os feitos divinos do futuro e do passado. ”

Pitágoras relaciona o número e suas combinações à origem do cosmo, e a combinação dos sons como representante dessa “Harmonia universal”. Seguindo esse caminho, Platão e Aristóteles acreditam que a música pode suscitar diferentes estados de espírito no ouvinte, quer para o bem ou o mal. Por essa razão algumas harmonias deveriam ser evitadas.

Como podemos ver, a Música, como a arte em geral, não era vista como um mero entretenimento. Essa ideia perdurou por anos e influenciou a base da Música cristã, que pretendo falar posteriormente. 

E hoje? O que mudou daqueles tempos para cá? Mude a figura dos poetas e Rapsodos por artistas da mídia (que grave ofensa aos poetas) e o teatro por filmes, novelas e afins, e vai encontrar, acredito eu, a resposta.


Fontes:

 História da Música Ocidental - Grout e Palisca

Paideia : A formação do Homem Grego - Werner Jaeger

As Rãs - Aristófanes

Teogonia: A origem dos Deuses - Hesíodo

 

 

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