A música faz parte do nosso cotidiano, isso é inegável, seja na Tv ou na internet, não há um dia que não ouvimos música. De forma voluntária ou não, ela chega a nós tão fácil e com um volume tão absurdo que o simples ato de ouvir música se tornou algo banal. É comum ouvir música como pano de fundo em uma festa ou até em casa mesmo, quando o som fica ligado enquanto se lava a louça.
Essa facilidade de consumo influencia na qualidade do que se
ouve. Músicas simples com melodias pobres, e nem preciso falar das letras. Após
lecionar alguns anos em escola eu me fiz uma pergunta que acredito não ser o
primeiro: O que houve com a Música?
Para tentar responder essa questão eu me voltei aos antigos
com o intuito de encontrar a raíz do problema. Eu ainda não a encontrei, mas
quero dividir com vocês, nesse post, o caminho que acredito ser o mais
plausível.
Primeiro precisamos entender que para os gregos, a música
tinha um conceito mais amplo que temos hoje. O termo “Mousiké” se refere a toda
criação artística derivada das Musas. Portanto a Música, para eles, trata-se de
arte.
Em um primeiro momento,
na época Homérica, para ser mais exato, “a arte das Musas” era transmitida por
Rapsodos, poetas que declamavam seus versos em praças públicas e banquetes. Entre
esses poemas podemos destacar a “Ilíada” e a “Odisseia”, ambos de autoria
atribuída a Homero.
| Pitagóricos celebram o nascer do Sol - Fyodor Bronnikov |
Estamos falando de um tempo onde não existia escola e muito
menos pessoas alfabetizadas, os conhecimentos eram transmitidos de forma oral,
e a figura do poeta era fundamental para essa transmissão de conhecimento. Por sua
importância, o artista era visto como um educador. Já podemos perceber então o
papel dado à Música, e como ela moldou a sociedade da época.
Outra manifestação artística surgida em um momento posterior é o teatro. Aqui temos o nascimento da comédia e da tragédia. Da mesma forma que os poetas influenciavam com seus versos, o povo também era “educado” pelos espetáculos teatrais, e isso fica bastante claro em um trecho da comédia “as Rãs” do comediógrafo Aristófanes:
“Aí estão os temas que os poetas devem cultivar. Veja, por exemplo, os serviços prestados desde o princípio pelos poetas mais ilustres: Orfeu ensinou os Mistérios sagrados e o horror à violência; Museu, os remédios para as doenças, e os oráculos; Hesíodo ensinou a agricultura — a época das colheitas e da semeadura. E o divino Homero, de onde lhe veio tanta honra e glória senão por haver ensinado melhor que todos os outros as virtudes marciais, a arte das batalhas e a profissão das armas? ”
Outro fato interessante é a origem divina atribuída à
Música. As Musas, já citadas, são filhas de Zeus. Elas são as responsáveis por “cantar”
aos ouvidos do poeta que são meros transmissores:
“ Assim disseram, com hábeis palavras, as filhas do grande
Zeus[...] inspirando-me um canto sublime, para glorificar os feitos divinos do
futuro e do passado. ”
Pitágoras relaciona o número e suas combinações à origem do
cosmo, e a combinação dos sons como representante dessa “Harmonia universal”. Seguindo
esse caminho, Platão e Aristóteles acreditam que a música pode suscitar
diferentes estados de espírito no ouvinte, quer para o bem ou o mal. Por essa
razão algumas harmonias deveriam ser evitadas.
Como podemos ver, a Música, como a arte em geral, não era vista como um mero entretenimento. Essa ideia perdurou por anos e influenciou a base da Música cristã, que pretendo falar posteriormente.
E hoje? O que mudou daqueles tempos para cá? Mude a figura
dos poetas e Rapsodos por artistas da mídia (que grave ofensa aos poetas) e o
teatro por filmes, novelas e afins, e vai encontrar, acredito eu, a resposta.
Fontes:
História da Música Ocidental - Grout e Palisca
Paideia : A formação do Homem Grego - Werner Jaeger
Teogonia: A origem dos Deuses - Hesíodo
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